30 de junho de 2015

Sob o jugo da petrificação da Medusa!


"Sejamos animais humanos "parcialmente mortos para o mundo" ou animais humanos "abertamente sensíveis para o mundo", há muitos de nós sendo arrastados por uma força que percebemos como vinda de fora ou, com a mesma força, vinda de dentro, ou ainda chicoteados por ambas até que "eu" não tenho mais controle de minha própria vida. Esse "eu" não tem um sistema próprio de valores. Não é o senhor em seu próprio castelo. Todo dia a máscara, ou persona, se desempenha com perfeita eficiência, mas quando o serviço está concluído aqueles ritmos frenéticos e estranhos continuam dominando o corpo e o Ser. Não há um "eu" para dar um basta nisso, nenhum ego forte e diferenciado capaz de desacelerar e recuperar os ritmos naturais. Se esses ritmos naturais afundaram na inconsciência total, o ato de ser desaparece e, tal como o bicho espancado, neurótico, aterrorizado, o corpo tenta prosseguir com ritmos totalmente estranhos à sua natureza. A atitude de lobo que, de dia, cobra mais, mais e mais, à noite uiva "eu quero, eu quero, eu quero". Os valores da sociedade baseados na ética do trabalho e em padrões, ambições e metas perfeccionistas sustentam a atitude de lobo na selva profissional, mas a sociedade nada pode fazer para alimentar o lobo solitário à noite. Algumas pessoas se deixam levar pelo bando e afundam em álcool, sexo, comida e drogas. Em seu esforço de fugir dizem: "É melhor estar bêbado que enlouquecer, melhor estar vomitando que ficar louco, melhor ser gordo que 'pirado'". Mas não há alguém bebendo, amando, comendo ou vomitando porque não há esse alguém presente no que faz. Os instintos, dotados de um ponto natural de saciação, não estão em funcionamento. Esse vazio nunca será preenchido. Algumas pessoas que atendo no meu consultório recusam-se a deixar-se arrastar pelo bando mas, mesmo assim, caem nas garras da síndrome do lobo. Engolem a contragosto o álcool que não apreciam, devoram alimentos que não mastigam, faxinam a casa imaculada todas as noites, ou se livram de qualquer resíduo de carne que ainda reste em torno de seus pobres ossos. Acabam indo para terapia porque sabem que "isso é loucura". Seu "eu" está possuído por algum demônio sobre o qual não têm o menor controle. Esse demônio que, de dia, enverga a máscara da respeitabilidade mostra a verdadeira cara à noite. Exige perfeição — eficiência perfeita, mundo perfeito, limpeza perfeita, corpo perfeito, ossos perfeitos, mas como as pessoas são humanas e não anúncios de TV em horário nobre elas descambam no caos perfeito e na morte perfeita.
O demônio as destrói e, estando destruídas, finalmente caem no sono. O que falta é o equilíbrio que lhes devolveria qualidade à sua vida."
Marion Woodman - O Vício da Perfeição
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